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PRIMEIRA
HORA – OSASCO, 14 DE SETEMBRO DE 1991
COMPORTAMENTO
Documento
Mostra Como Era o
Aluno do Jaguaribe Há 50 anos
Através
da história de uma escola (que já não existe) e do relatório da
visita de um estudante do Instituto de Higiene do Estado, realizado
em 1942, é possível se ter uma idéia de como viviam os alunos do
antigo Vale de São Pedro, atualmente conhecido como Vila Jaguaribe.
Reportagem de Luis Pires.
Na década de 30, enquanto o movimento tenentista sacudia o país, instalava-se nas tranqüilas terras osasquenses Olavo Jaguaribe Ekman, filho de Flora Jaguaribe, uma das herdeiras dos bosques que o médico Domingos José Nogueira Jaguaribe havia mandado plantar na região, com mudas vindas da Europa. Olavo havia se casado recentemente com Hercília Ribeiro, vindo a morar na casa de campo que seu pai, o arquiteto sueco Carlos Ekman, havia erguido na Estrada de Bussocaba (atual avenida Padre Vicente Melilo).
A região era formada por pequenas chácaras e, através de um levantamento, Olavo constatou que haviam 60 crianças em idade escolar, sem nenhuma escola que as atendesse. Assim, em maio de 1939, enviou correspondência para o diretor do Departamento de Educação do Estado de São Paulo solicitando que fosse instalada nas imediações urna escola pública gratuita.
Para facilitar a instalação, ele cederia "gratuitamente por três anos" um prédio de sua propriedade, construído num terreno de 1000 m2, localizado entre as atuais ruas Anísio Silveira e Santo Roverco. No documento, Olavo apresentava às autoridades o resultado de sua pesquisa e definia o Vale de São Pedro, também conhecido como Chácara Jaguaribe,
como "uma pequena povoação nova em uma zona agrícola" e o alunos como
"filhos dos lavradores circunvizinhos".
Em três meses, Olavo viu seu pedido atendido. O Diário Oficial do Estado de São Paulo trouxe em sua edição do dia 15 de agosto o decreto que criava a Escola Mista do Valle de São Pedro (Chácara Jaguaribe). Como não existiam educadores(as) na região, foi necessário que o Departamento de Educação designasse para o cargo uma professora de Pinheiros, cujo nome não ficou registrado. Sabe-se apenas que ela diariamente tomava um ônibus até Osasco, mais precisamente até a rua da Carteira (atual Narciso Sturlini), onde uma charrete a conduzia até a escola num percurso de aproximadamente quinze minutos. "Quando as chuvas a impediam de chegar à escola, era minha mãe quem cuidava das crianças", informou o arquiteto Domingos Jaguaribe Ekman, filho de Olavo e Hercília.
Visita
Oficial
Em seu terceiro ano de funcionamento, a Escola Isolada do Vale de São Pedro recebeu a visita de um representante do Instituto de Higiene do Estado de São Paulo. Uma cópia do relatório gerado por essa visita foi apresentada à reportagem de PRIMEIRA HORA por Domingos Jaguaribe Ekman, que a conserva junto com outros documentos em seu escritório montado na mesma casa ocupada pelo pai e pelo avô, na avenida Padre Vicente Melilo.
No relatório, o então estudante Wilson Fry, hoje um renomado cirurgião paulistano, observou ser a escola "perfeitamente acessível por automóvel", embora ele próprio tenha feito durante quase um mês -- tempo que durou sua pesquisa na escola -- o mesmo percurso da professora, ou seja, através de ônibus e charrete. Em suas observações iniciais, Fry escreveu: "Nos arredores da Escola Isolada do Vale de São Pedro existem grandes bosques, que dão ao local aspecto pitoresco e agradável e que concorrem de maneira apreciável para a excelência de seu clima".
Na escola o médico encontrou 40 alunos com idade entre 8 e 14 anos, sendo 22 do sexo masculino (onze no primeiro ano, quatro no segundo e sete no terceiro) e 18 do sexo feminino (nove na primeira série, seis na segunda e três na terceira), todos morando em média a três quilômetros da escola. Havia entre eles duas alunas estrangeiras (uma japonesa e outra portuguesa). Entre os brasileiros, 26 eram filhos de pais e mães brasileiros; dez eram nascidos de pais e mães estrangeiros e dois de pais estrangeiros e mães
rasileiras. Quatro tinham a cútis negra, 35 branca e uma amarela.
O documento descreve a sala de aula como um cômodo de 8 metros de comprimento por 4,5 m de largura, "com paredes de tijolos, coberto de telhas e com janelas de madeira", contendo 19 carteiras duplas e dois quadros negros. O número de alunos foi considerado pelo médico como “um pouco elevado para o respectivo espaço”.
"Não
Comemos Carnes Pois Somos Pobres"
Um dos objetivos da visita do órgão público à escola era estabelecer parâmetros que possibilitassem uma análise das condições sócio-econômicas dos alunos.
Na alimentação, após um questionário respondido por 39 dos 40 alunos, Fry concluiu que o principal prato digerido na região era arroz e feijão com farinha. O leite de vaca era bebido diariamente por apenas doze alunos. Três o ingeriam somente uma vez por semana e 24 não o faziam. Com os ovos a situação era mais grave: apenas um apontou comê-los diariamente, enquanto doze o faziam pelo menos três vezes por semana e 26 nunca os comiam.
O consumo de carnes também era pequeno: três apontaram comer o produto diariamente; um, duas vezes por semana; 30, uma vez por semana ("geralmente aos domingos", segundo o médico); quatro, uma vez por mês e apenas um disse não comer carne. Mesmo entre os poucos que normalmente digeriam o alimento, as medidas (500 gramas por família de cinco pessoas) foram consideradas como "deficitárias" pelo médico.
O principal fator apontado pelos alunos para justificar a falta desses alimentos em suas mesas era o econômico. "Não comemos carnes pois somos pobres", informou uma aluna (não identificada no relatório). Por isso, as frutas eram a alimentação mais abundante entre os alunos: 16 as comiam diariamente, oito de uma a três vezes por semana e apenas quatro não as comiam. "Dentre as frutas mais consumidas estão a laranja e a banana, fartamente encontradas nos pomares da região" apontava o relatório.
Wilson Fry observou ainda que a maioria ajudava os pais na roça pela manhã, para estudar à tarde. Em sua maioria, os alunos compareciam à escola descalços, mal vestidos e não muito limpos". Alguns habitavam casas de barro, cobertas de sapé e sem banheiro, facilitando a proliferação de verminoses, doença comum à maioria deles. Outros moravam em casas de tábuas “com janelas sem vidraças e sem assoalhos de madeira". Apesar de todo o esforço da professora, Fry. concluiu que se tratavam de “crianças dóceis, porém o aproveitamento delas não é eficaz".
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