PRIMEIRA HORA – OSASCO, 31 DE AGOSTO DE 1991

Emancipação: Frma de Pressão
ou Movimento Organizado?

Usados como forma de pressão, diversos movimentos separatistas movimentam episodicamente a região desde a autonomia de Osasco, em 1962. Na Vila dos Remédios (um bairro dividido entre duas cidades), as idéias emancipacionistas ecoam com maior intensidade. Alguns moradores ainda sonham com a possibilidade de voltar a ser paulistanos. Reportagem de Luís Pires.

"A ponte ou Emancipação". Com essa manchete o jornal Unidade Popular ganhava as ruas dos bairros da região nordeste (vilas São José, Ayrosa, dos Remédios e jardins Marieta e Rochdale), em novembro de 1985. Na matéria, o editor do periódico, Jesuíno Turco, chamava a população da região a participar de um ato de protesto contra a demolição da ponte do Rochdale, anunciada pelo DAAE (Departamento de Águas e Esgotos do governo do Estado), tão logo estivessem concluídas as obras do viaduto Tancredo Neves, inaugurado em novembro de 1986.

Caso isso se concretizasse, os moradores da área, isolados do restante da cidade pelo rio Tietê, teriam aumentada distância obrigatória do Centro em quase três quilômetros, já que a ligação só seria possível através do novo viaduto.

Em seu editorial o jornal era enfático: “A ponte ou a emancipação é o que o povo da Zona Norte, mais precisamente Nordeste, quer e exige. Esses bairros não pediram para integrar o município de Osasco, tanto que a divisa da cidade não obedece a um acidente geográfico, conforme determina a Lei Orgânica dos Municípios. Se não for construída uma nova ponte em substituição à do Rochdale, não Ihes restará outra alternativa senão brigar pela autonomia político administrativa de toda Zona Norte, colocando assim, a divisa do município no seu devido lugar: o Tietê".

Um ato público, que reuniu centenas de manifestantes na Praça Kennedy, no Rochdale, deu resultado: o ex-prefeito Carlos Humberto Parro conseguiu a promessa do então governador do Estado, Franco Montoro, de que a ponte rochdalense só seria demolida após a conclusão de uma outra, ligando a vila São José a Presidente Altino, cujas obras estão em andamento.

Esse foi apenas um exemplo das muitas manifestações separatistas de uma região que, embora esteja muito próxima em linha reta do Centro, é a que anda mais quilômetros para chegar ao Paço Municipal e se sente esquecida pelas administraçães osasquenses, sejam elas de esquerda, centro ou de direita.

Remédios: Divisão Com a Emancipação

Na Vila dos Remédios a idéia de separação ecoa com mais intensidade. Inconformados com a divisão do bairro entre duas cidades -- São Paulo e Osasco -- muitos moradores ainda não engoliram os limites imposto pela emancipação osasquense e sonham com o dia em que poderão ser novamente cidadãos paulistanos.

Para entender o choque que significou o episódio da emancipação para a comunidade remediense, é necessário voltar algumas décadas no tempo. No final dos anos 50, a Vila dos Remédios ainda era um local pouco habitado, que sentia o isolamento de São Paulo imposto pelo rio Tietê e também do então bairro de Osasco, por problemas de condução.

A Igreja Nossa Senhora dos Remédios era seu epicentro e norteava a vida de sua comunidade, fortemente marcada pelos laços da amizade. A grande maioria dos melhoramentos trazidos à região surgiram através de comissões, que sempre tinham à frente os três padres lateranenses (José, Domingos e Guerino).

Os moradores mais antigos contam que certa feita cotizaram-se para cobrir as despesas de uma extensão da rede elétrica no bairro. Segundo declarou Francisco Cataldo ao jornal Unidade Popular, em agosto de 1985, "o dinheiro arrecadado ficou em poder de um dos líderes do movimento. Foi quando surgiu um indivíduo dizendo-se empregado da Light e, na boa fé, foi-lhe entregue o dinheiro para os serviços. O sujeito nunca mais apareceu e, ao perceber que havia sido enganado, esse líder suicidou-se por vergonha dos companheiros, mesmo não sendo culpado".

Esse sentimento de união começou a desaparecer a partir de fevereiro de 1962, quando Osasco conquistou sua autonomia. Embora a Vila dos Remédios formasse uma comunidade culturamente integrada, o bairro foi dividido ao meio, ficando sua parte a leste da avenida dos Remédios sob o comando da Prefeitura paulista, e a oeste, da osasquense. "Não me lembro de ter escutado falar em emancipação [de Osasco] antes dela ter ocorrido. Não fomos sequer consultados. Quando percebemos já estávamos divididos", declarou AIcides da Conceição, um dos moradores mais antigos do bairro.

Aceita ou não, o fato é que a autonomia osasquense dividiu (não só geograficamente) os moradores da Vila dos Remédios. Jair da Conceição, por exemplo, diz conhecer pessoas que têm vergonha de dizer que moram na parte osasquense do bairro. "Elas dizem que moram próximas à Lapa ou ao Ceasa, mas nunca em Osasco". Sua mãe, Tereza Leardini da Conceição, acha que a emancipação prejudicou o bairro. E usa como parâmetro para fundamentar o que diz a vila Jaguara. "O Remédios era desenvolvido e o Jaguara abandonado. Hoje paramos no tempo e eles não".

Na opinião da secretária da paróquia Nossa Senhora dos Remédios, Luci Ananias, a divisão também trouxe richas e inimizades para o local. As pessoas se afastaram. Os vizinhos não se conhecem mais e as boas amizades ficaram restritas aos antigos moradores".

"Queremos Voltar a Ser Paulistanos"

Como Tereza, pensa o advogado Koiti Hirashima, presidente da Sociedade Amigos de Vila dos Remédios - Setor Osasco. "Desde que cheguei aqui, em 1961, a vila não recebeu investimentos de porte, sejam da iniciativa privada ou pública. Ninguém quer investir num bairro dividido entre duas cidades". Ele acha que a vida do remediense está mais próxima da paulistana do que da osasquense, principalmente pela dificuldade de integração com o restante da cidade e a facilidade de locomoção para os bairros paulistanos da Lapa, Pirituba ou o próprio Centro. "Numa emergência, por exemplo, chegamos mais rápido a um pronto socorro na Lapa ou em Pirituba, do que em Osasco".

Hirashima sonha em ver o bairro unificado. "Ou somos todos osasquenses ou então paulistanos" . Ele não esconde, porém, sua queda por São Paulo, mas diz ser por motivos legais: "Pelas leis vigentes, não existe a mínima condição do lado paulistano vir a ser osasquense. Já o inverso é plenamente possível".

Pensando nessa possibilidade, informou Hirashima, um grupo de moradores criou a União Pró-Remédios, cujo objetivo principal era a luta pela reunificação da Vila dos Remédios. "Trabalhamos para eleger um vereador para que ele lutasse por essa questão, mas ele desvirtuou a luta e se apoderou politicamente da entidade, esquecendo o movimento separatista". O advogado se refere ao vereador Mário Tenório, primeiro representante da região na Câmara Municipal, eleito em 1988, que se defendeu: "Sou atualmente o presidente da União Pró-Remédios, mas meu único compromisso de campanha foi a construção de uma escola para excepcionais, que felizmente estou cumprindo".

Para Hirashima, porém, o movimento não está morto, mas apenas adormecido. Estamos nos preparando para tentarmos eleger um deputado estadual na região, disposto a encampar nossa campanha". Em sua opinião, a composição da atual bancada osasquense (os deputados Celso Giglio e João Paulo Cunha" não favorecem sequer o diálogo sobre o assunto.

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