PRIMEIRA HORA – OSASCO, 24 DE AGOSTO DE 1991

VILA DOS REMÉDIOS

Igreja Esconde Uma História Centenária

Caminhando lado a lado, a história da Vila dos Remédios e a de sua igreja se confundem. Desde a metade do século passado, com a criação da Irmandade da Imaculada Conceição do Sítio dos Remédios, foi em torno da igreja que o bairro cresceu. Reportagem de Luís Pires.

É impossível separar a história da Vila dos Remédios da de sua igreja. Desde o início de seu povoamento --quando então o local era conhecido como Sítio dos Remédios, devido à variedade de ervas medicinais encontradas em suas matas -- as duas histórias caminharam de mãos dadas, muitas vezes confundindo-se. 

A antiga Casa Paroquial, hoje sede
da Creche Padre Guerino (foto de 1965).

Documentos dão conta de que em 1854 (quarenta anos antes, portanto, do pioneiro Antônio Agu se instalar em terras osasquenses) já existe no local a Irmandade da Imaculada Conceição do Sítio dos Remédios. Segundo se conta entre os moradores mais antigos, que por sua vez ouviram tais histórias de seus pais e avós, a irmandade adorava à santa em uma capela feita de pau-a-pique, onde atualmente se localiza o Real Clube, na Praça Nossa Senhora dos Remédios.

Quando o velho sítio -- pertencente à família Ayrosa – começou a tomar ares de vilarejo, seus moradores ergueram um pequeno templo, de cerca de 80 m2. Não se sabe precisar a data dessa construção -- algo entre os anos de 1862 e 1876 --, mas em tomo dela surgiria a Vila dos Remédios.

Os Três Mosqueteiros

Apesar de possuírem uma igreja para rezar, os moradores do Sítio dos Remédios não tinham um padre que os atendesse. Os vigários eram trazidos da Freguesia do Ó, da vila Leopoldina e da Lapa, e o isolamento do sítio, decretado pelo rio Tietê, e a falta de pontes para a sua travessia, fazia com que as missas não tivessem periodicidade.

Somente no início dos anos 50, com a indicação do padre José Soares Guimarães, é que a vila seria elevada à categoria de paróquia. Guimarães, um capelão do Exército ficou no Remédios apenas o tempo suficiente para mudar a padroeira local. Como não encontrou na "igrejinha" qualquer imagem da santa protetora -- Imaculada Conceição -- o padre mandou fazer uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira dos militares (ver quadro), rapidamente adotada pela comunidade.

Com a saída de Guimarães, em 1952, os fiéis ficaram novamente alguns meses sem padre. Em janeiro de 1953, chegaram à vila dois padres da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, Domingos Tonini e Guerino Ricciotti. Juntos com o padre José Losciale (que chegou à vila em 1958) eles ficaram conhecidos como "os três mosqueteiros", devido ao espírito "batalhador" do trio e às melhorias que trouxeram ao bairro, conquistadas pelo bom relacionamento que mantinham com os governantes do então distrito paulistano.

A Necessidade de Um Novo Templo

Atualmente com oitenta anos de idade, padre Domingos Tonini declarou, em entrevista concedida a PRIMEIRA HORA no último final de semana, que quando aqui chegou não haviam muitos habitantes. A vila era isolada de São Paulo por causa do rio e de Osasco por falta de transportes".

Domingos comentou que a casa paroquial (atual sede da Creche Padre Guerino) possuía apenas três cômodos. "O padre Guerino (já falecido) teve de ficar morando na Lapa por quatro anos, pois não havia acomodação para duas pessoas na casa", que só foi aumentada com a indenização recebida pela igreja, referente à desapropriação de um terreno à beira-rio.

"Construímos mais alguns cômodos na casa paroquial e uma garagem, que serviu às crianças como escola por muitos anos". 

Com o crescimento da população da Vila dos Remédios, verificada com o loteamento das terras de Antônio Ayrosa, a velha igreja, construída no século passado, não mais atendia às necessidades da comunidade. Padre Domingos se recorda das missas rezadas em sua porta "pois não cabia todo mundo no lado de dentro".

Por causa disso, os "três mosqueteiros" lançaram uma campanha para a construção de um novo templo: cada família doaria o equivalente a um metro do terreno. As doações, juntadas ao dinheiro da igreja, possibilitaram a compra de um terreno de 5.000 m2, onde hoje está erguida a igreja e a Escola Nossa Senhora dos Remédios. A pedra fundamental da igreja foi abençoada pelo bispo de São Paulo, Dom Paulo Rolim Loureiro, em 1956, em solenidade assistida pelo ex-gover-nador Adhemar de Barros. A cons-trução se estendeu até 1972 pois, segundo o padre, não havia recursos financeiros para construí-Ia rapidamente. "Conseguimos concluí-la com a colaboração de toda a comunidade".

Antiga imagem de Nossa Senhora Imaculada
Conceição, vinda de Portugual para o sítio
dos Remédios.  Ao lado, a imagem de Nossa
Senhora dos Remédios, atual padroeira do bairro.

Quermesse: Gerando Recursos

Inúmeros eventos foram "bolados" para arrecadar fundos para a construção da igreja. Dentre eles, o mais memorável e o que reunia maior número de pessoas era a quermesse, realizada freqüentemente. José Nunes, o Zinho, um de seus coordenadores, declarou que “durante dezoito anos arrecadamos dinheiro através das quer-messes”. Segundo Alcides da Con-ceição, de 68 anos, todos eles vividos na Vila dos Remédios, “parecia uma quermesse do interior. Centenas de pessoas participavam dos leilões de cabras; porcos, galinhas etc. Era nossa maior diversão". O padre Domin-gos lembra-se que havia finais de semana em que eram arrecadados até oito contos de réis, uma somatória espantosa para a época".

Além das quermesses, campanhas foram inventadas pelos paroquianos para a construção do novo templo. "Certa vez realizamos a campanha do ferro velho e das garrafas vazias. Esses materiais eram recolhidos nas casas dos moradores e repassados para empresas do ramo, gerando recursos para a compra de materiais de construção”, recorda-se Domin-gos. Segundo ele, esses materiais eram comprados no depósito do Romano, que funcionava num bar-racão de madeira. Atualmente o Romano é a maior empresa insta-lada na Vila dos Remédios e uma das maiores do Brasil no ramo de materiais para construção.

Em 1967, quando a nova igreja já estava em condições para a realização de missas, batizados e crismas, os responsáveis pela paróquia decidiram demolir a igreja velha localizada exatamente onde atualmente se ergue a praça Nossa Senhora dos Remédios, alegando não haver mais interesse em sua manutenção. Padre Domingos, na época trabalhando no Rio Grande do Sul, analisa hoje que não havia necessidade de sua demolição. "Ela poderia ser preservada como um marco histórico”. O mesmo pensa-mento divide com Luci Ananias, secretária da paróquia. "A igrejinha era muito bonita, bem aconchegante", Foi uma pena a terem demolido”. Alcides Conceição, que inclusive trabalhou na demolição da igreja, declarou que “na época todo mundo aceitou. Depois muita gente se arrependeu, como eu. Ela deveria ser preservada”.

A nova igreja foi solenemente inaugurada em setembro de 1972, recebendo a benção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Santa é a Padroeira dos Militares

No início dos anos 50, quando foi designado para ocupar o cargo de vigário na recém-criada Paróquia da Vila dos Remédios, o capelão do Exército José Soares Guimarães, não encontrou na igreja qualquer imagem de Nossa Senhora Imaculada Conceição, santa que os moradores locais veneravam. Aproveitando a deixa, o padre mandou fazer uma imagem de Nossa Senhora do Remédios, padroeira dos militares, substituindo a proteção do bairro.

A atual protetora da Vila dos Remédios tem origem mexicana. Conta-se que em 9 de julho de 1520, numa das investidas do conquistador espanhol Fernando Cortez contra o Império Asteca, episódio conhecido como “Noite Triste”, os nativos astecas, em defesa de seus patrimônios, travaram na planície de Otocampulco uma sangrenta batalha com os conquistadores, massacrando os espanhóis. Conta a lenda católica que os sobreviventes teriam alcançado a cura de seus ferimentos invocando a uma imagem da Virgem Maria, trazida na mochila de um dos soldados, passando a chamá-la de Nossa Senhora dos Remédios.

Em 1540, no mesmo local, o cacique cristão João de Tovar encontrou essa imagem, construindo uma ermida para abrigá-la. Anos mais tarde, o governador da província, numa de suas caçadas, deparou-se com a ermida, encontrando a imagem da santa em seu interior. Ali ele mandou edificar de Nossa Senhora dos Remédios.

Atualmente a santa tem seu santuário em São Bartolomeu Noucalpán, localidade distante 12 quilômetros da Capital do México. A festa da padroeira remediense e dos militares é realizada no segundo domingo do mês de setembro.

RAIO "X" DE BAIRRO DIVIDIDO

Uma Cardiografia do "Coração" Remediense

Assim como a maioria das cidades brasileiras, a Vila dos Remédios cresceu e se expandiu tendo como epicentro a Igreja de Nossa Sra. dos Remédios, um "coração" que ritmou -- e continua ritmando, porém com menos intensidade -- a vida do bairro. PRIMEIRA HORA garimpou nos arquivos da própria igreja e também nos da família Conceição (uma das primeiras a se instalar no lugar) alguns "flashs", que "mostram a metamorfose, sofrida pela igreja, partindo da simplicidade da "igrejinha", até chegar à imponência da atual construção.

A procissão de chegada da imagem de Nossa Senhora dos
Remédios, por volta de 1952. A santa assumiu o cargo de
padroeira, substituindo a Imaculada Conceição, adorada
pelos fiéis do antigo Sítio dos Remédios desde a metade
do século passado.  


Alcides da Conceição posa para
foto em cima da parede da
"igrejinha", demolida em 1967.


Vista frontal da "igrejinha", como era chamada pelos moradores. Construída no século passado, tinha seis metros de largura e dez de comprimento. Sua frente era voltada para o rio Tietê (leste), enquanto seus fundos para o lado de Osasco (oeste).


Duas fases da construção da nova
igreja, que iniciou-se em 1956,
estendendo-se até 17/09/1972...



...quando recebeu a bênção do arcebispo
de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Câmara Municipal de Osasco
Av. dos Autonomistas, 2607 - Centro - Osasco/SP - Brasil
CEP: 06090-905 - Fone: (11) 3699-9133 - E-Mail: qualidade@camaraosasco.sp.gov.br