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PRIMEIRA
HORA – OSASCO, 20 DE JULHO DE 1991
ROCHDALE/PIRATININGA
As águas antes barrentas e hoje poluídas, do rio Tietê são o fio líquido da continuidade histórica da porta de entrada da Zona Norte de Osasco: os bairros do Rochdale e do Piratinga. Principal local de lazer dos osasquenses no começo do século, o rio também era a fonte de sustento dos moradores da Ilha de São João e abrigava portos de areia que fizeram a fortuna de muita gente. Depois, suas curvas foram aplainadas pelo canal construído pela Light,
uma das maiores obras de engenharia da Grande São Paulo, consolidando a separação entre as zonas Norte e Sul de Osasco. Às margens do Braço Morto do Tietê brotaram favelas, que bloqueiam avenidas de integração da cidade e são focos de problemas sociais e epidemias. Durante anos, os habitantes da Zona Norte chegavam à Sul da cidade por meio de balsas, pinquelas de tambores ou pela ponte de madeira que unia o Piratininga ao Bonfim. Depois surgiu a ponte de concreto do Rochdale, que deve ser demolida para evitar enchentes em São Paulo. Desde 1986, a região conta com o viaduto Tancredo Neves, chamado
da Integração, mas ele é insuficiente para integrar quase um quarto dos osasquenses ao resto da cidade.
Reportagem de Luís Pires.
SONHO PARADO NO TEMPO
Rochdale:
Uma Ilha Que Nasceu
Para o Sonho e Hoje Abriga Favelas
Osasco é
uma cidade que nasceu talhada para o sonho e sempre os viu transformados em pesadelos. Um deles é o da cooperativa da casa própria num bairro moderno. Sonhava-se montar aqui a Utopia de Thomas Morus, em que todos morariam bem e os vizinhos se ajudariam, solidariamente. O local era a Ilha de São João. E o nome da utopia seria Rochdale.
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A
favela
no Braço
Morto do Tietê |
O bairro do Rochdale nasceu com o nome de Cooperativa Rochdale de Osasco, em homenagem ao movimento cooperativista inglês, que se iniciou na cidade homônima inglesa na metade do século XIX (ver quadro). Em 1951, um grupo de empresários (em sua maioria ,diretores de bancos e comissários do café), liderados pelo advogado Fernando Marrey, adquiriu um sítio de aproximadamente 1.250 quilômetros quadrados, localizado em Osasco. A área pertencia ao português Manoel Rodrigues, que a havia comprado de Antônio Agu, nos primórdios do então bairro de Osasco, por causa das obras de retificação do leito do rio Tietê, reali-zadas em 1940, a área havia se transformado numa ilha, conhecida pelo nome de São João e também por causa dos seus castanhais (ver quadro). Segundo declarações de Marrey, pinçadas de uma entrevista realizada em 1988 pela equipe do Museu Municipal, o grupo pretendia instalar no terreno uma cooperativa, nos moldes ingleses. Com esse propósito, em 1951, a área foi loteada, sendo os primeiros compradores operários que haviam se empregado recentemente nas indústrias osasquenses.
Como os operários não tinham condições financeiras para erguer suas moradias, a cooperativa Rochdale (fundada pelos empresários) Ihes forneceria as plantas e financi-aria os materiais para a construção, pagos posteriormente em pequenas prestações. Conforme Marrey, "nesse sistema foram benefíciadas 174 famílías,que inicialmente se insta-laram no Rochdale".
Os recursos da cooperativa origi-navam-se de uma "caixa", organizada com uma contribuição extra de vinte cruzeiros que cada empresário pagou por cada metro quadrado, quando foi adquirido o terreno de Manoel Rodrigues.
Cooperativismo
Rochdalense
Um dos princípios do movimento cooperativista reza que a própria comunidade deve procurar a so1ução para seus problemas sociais. Assim, logo que foram instaladas as primei-ras famílias no Rochdale, a Coo-perativa montou um armazém, para que os cooperados adquirissem al-imentos. Também pensando na infra-estrutura necessária para manter a comunidade, foram reservados 60.000m2 -- "nas melhores locali-zações", segundo Marrey -- para a construção de escolas, hospitais, campos para a prática de esportes etc.
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A
chácara da família Rodrigues, onde
castanheiras ainda podem ser vistas |
O primeiro empreendimento foi a construção de um galpão, que ser-viu de escola para os filhos dos co-operados. Segundo depoimentos de Fernando Marrey, "quando consta-tamos que havia 26 crianças em idade escolar, entramos com um pedido na Delegacia de Ensino, para a
instalação de uma classe primária. Em dois anos, já mantínhamos quatro classes". A escola era dirigida pelo professor José Liberatti, que em 1970 seria eleito o prefeito osasquense.
Outro exemplo do cooperativismo presente no Rochdale se deu com a criação de uma escola profissionali-zante em 1959. “Como o Senai nos deu a previsão de dez anos para montar ali uma unidade, a
Cooperativa entrou em contato com alguns industriais osasquenses e em pouco tempo entregou um prédio para o Senai instalar cursos profissionali-zantes para a comunidade", informou Marrey. A Escola Senai funcionou no bairro até 1968, quando foi trans-ferida para Presidente Altino.
População
Crescente
Apesar da preocupação da co-operativa em dar aos cooperados as mínimas condições de vida, não era fácil se viver no Rochdale. Essa é a opinião de Maria Ribeiro, que chegou ao bairro em 1958. "Apesar de ser um local agradável, com ruas largas, quando chovia ninguém conseguia sair de casa por causa do barro que se formava". Ela conta que nessas ocasiões a entrega do pão e do leite era feita de carroça, ficava com-prometida, pois não se conseguia chegar até as casas.
José Correia, outro morador an-tigo do bairro, lembra que mesmo não conseguindo sair de casa quando chovia, o Rochdale era um local agradável para se morar. Para ele, a educação e o lazer compensavam os males. Seus filhos estudaram na escola da Cooperativa. "Era a direção quem dava material escolar para os alunos". Correia também lembra que dava para se pescar no Tietê e as famílias iam fazer pique-nique na beira do rio, nos finais de semana".
Esses fatos talvez justifiquem o crescimento populacional do bairro. Mesmo isolado do restante da cidade pelo rio Tietê, das cerca de mil pes-soas que se instalaram no Rochdale com a Cooperativa em 1952, a popu-lação saltou para 4.600 em 1960 e 13.750, em 1966.
Com a emancipação de Osasco e o fortalecimento do município, a Cooperativa Rochdale de Osasco per-deu sua força e a idéia do movimento cooperativista se esvaziou. O comércio fugiu do controle da Co-operativa e os terrenos reservados a obras sociais, que não haviam sido aproveitados, foram desapropriados pela Prefeitura para a construção do Estádio do Rochdale, do Posto de Saúde e do atual Quartel da Polícia Militar, todos na avenida Cruzeiro do Sul.
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Rochdale Já Foi Uma Ilha
Em 1940, a Light (atual Eletropaulo) precisou ampliar a potência da barragem Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba, e para tanto retificou o leito do rio, transformando a região do atual bairro do Rochdale numa ilha, que foi batizada com o nome de São João. Seu proprietário, o português Manoel Rodrigues, trouxe mudas de castanhas de sua terra natal e as plantou no local.
Na memória de antigos moradores da cidade como Manoel Fiorita, essas castanheiras estão bem presentes: “eu era garoto e trabalhava abrindo as castanhas, que pareciam um ouriço do mar. Recebíamos duzentos réis por cada litro recolhido, mas só eram aceitas as castanhas que não estivessem machucadas”.
Uma pequena parte da propriedade da família Rodrigues ainda existe. Ela fica próxima à Engediesel, à esquerda do rio Tietê, no sentido Piratininga-Rochdale. Na chácara, hoje pertencente a Afonso Rodrigues neto de Manoel, ainda é possível se ver algumas castanheiras e um belo pomar. Segundo João Salgado, caseiro do local desde 1979, metade da propriedade desapropriada há pouco tempo pelo Estado, para o alargamento da marginal do rio. “É uma pena, pois vão desaparecer árvores centenárias”. |
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Cooperativismo: Origem Inglesa
A experiência cooperativista começou na Inglaterra e na França, entre 1820 e 1850. O objetivo básico do cooperativismo é a redução dos custos de determinado tipo de produto, em benefício de seus membros e mediante esforços comuns de todos.
Inicialmente, além de suas funções econômicas, a cooperativa desempenhava o papel de sociedade beneficente, de sindicato e de universidade popular. A cooperativa Rochdale se inspirou no movimento inglês da cidade homônima. Em 1844, um grupo de 28 operários tecelões organizou a Rochdale Society of Equitable Fioneers, que se tornou modelo das cooperativas do mundo. No Brasil o cooperativismo foi introduzido nos estados sulinos no início deste século, sobretudo no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Em 1986, existia no Brasil 3119 cooperativas, das quais 463 de consumo, 1557 de produção e 1099 de outras espécies. Em São Paulo, a mais conhecida delas é a Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), que atua no ramo da agricultura. Em Osasco, a mais famosa é a Coopergran (Cooperativa dos Trabalhadores da Grande São Paulo), que começou como uma cooperativa de consumo dos operários da Cobrasma.
O cooperativismo rochdalense era um movimento habitacional, que tinha como objetivo principal ajudar seus membros a resolver seus problemas de moradia através do financiamento para construção ou aquisição de casa própria. |
O
LOCAL DA RESIDÊNCIA POPULAR
Piratininga:
Um Bairro Para O Povo Viver Bem
No começo do processo de industrialização do país – e de Osasco também – e no auge do populismo de Getúlio Vargas, planejava-se um operariado satisfeito e bem instalado. O Piratininga seria o local de residência-padrão para o povo.
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Vista
da avenida Getúlio Vargas:
porta de entrada para a Zona Norte |
No início do século XX, a área ao Norte do Tietê, nos fundos dos quartéis de Quitaúna era um enorme capinzal. Seu proprietário, em sociedade com Anselmo Cherello, era João Dante, um dos principais fabricantes de móveis de vime de São Paulo. Ele usava as terras para o plantio de capim, então uma das matérias-primas mais importantes na fabricação de colchões.
O
Rio Vencido à Balsa
Como o fazendeiro tinha quatro
filhos e não existia qualquer escola nas proximidades, Dante contratou um pro-fessor para alfabetizá-Ios. E, depois, ofereceu os serviços do alfabetizador para o restante da comunidade, cobrando, porém uma pequena taxa dos interessa-dos. "Essa, talvez, tenha sido a pri-meira escola particular de Osasco", observou Bruno Rovai, que, aos oito anos de idade, freqüentou as aulas do professor durante um ano.
Nascido na rua André Rovai, do lado sul do rio, em 1910, e ali criado, Bruno lembra-se que a única maneira de chegar às terras de João Dante era por uma balsa, conduzida por um homem de quem lhe ficou apenas um dos nomes: Gregório. Ainda segundo Bruno, na década de 30, as terras de Dante foram vendidas a outro empresário paulistano, Júlio Ribeiro, que loteou a parte entre o rio e a atual rodovia Castelo Branco, onde começaram a se instalar famílias que chegavam para trabalhar nas nascentes indústrias locais. Batizado com o nome de Planalto em que se localiza a metrópole paulis-tana, embora tenha recebido algumas indústrias de pequeno porte, o bairro ad-quiriu, antes, portanto da década de 40 e da Cobrasma, a vocação de servir a residências populares. Não é à toa que mesmo hoje, além de projetos da Prefei-tura para abrigar ex-favelados, como o Canaã, o Piratininga tem sido escolhido por órgãos como o Inocoop e o BNH para a edificação dos projetos mais ousados de moradia popular de Osasco.
IAPI:
Um Conjunto-Modelo
Os projetos habitacionais de Ribeiro, contudo, não lhe garantiram, o retorno desejado. Por isso, ele repassou uma parte de suas terras, aquele localizado até a divisa do atual Helena Maria, para o Instituto de Aposentadoria e Pre-vidência dos industriários, o antigo IAPI, sucedido pelo INPS. A outra parte de suas terras, Ribeiro vendeu ao já mega--empresário das comunicações Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, Rede Tupi etc. Como o Tietê ainda era um rio saudável e muito piscoso, Chateaubriand utilizava seu sítio para veraneio e trazia inúmeros amigos para festejadas pescarias.
Nas proximidades do Helena Maria, o IAPI construiu seu primeiro conjunto residencial, cujas casas eram alugadas a operários. A chegada das famílias ope-rárias e do cheiro de graxa das fábricas começou com a poluição do rio Tietê e o aparecimento de peixes mortos boiando em suas águas. Chateaubriand logo desistiria das pescarias e venderia também sua terra ao IAPI, que construiria um novo conjunto habitacional, com mais trezentas moradias. Ao contrário do que aconteceu com o X "IAPI velho", cujas casas eram alugadas -- e depois foram vendidas aos ocupantes -- , o "IAPI novo" foi concebido para ser vendido, conforme declarou AIcides Dof, carpinteiro responsável pelo forro de várias casas.
Com ruas planejadas e numeradas por letras, com leitos largos e sem muros (pois não se concebia operários rou-bando operários), todas as casas tinham uma ampla frente de seis a sete metros, completamente gramada e ajardinada. Nos primeiros tempos, os operários do IAPI dispunham de mais espaço e con-forto até que a pequena classe média do centro de Osasco.
AIcides -- que foi morar no "IAPI velho" em 1946 -- disse que "era ordem do presidente Getúlio Vargas que o IAPI construísse as casas e as vendesse a preços populares para os trabalhadores". Os pretendentes poderiam obter sua casa simplesmente dirigindo aos postos de inscrição. " Após a verificação de que não possuía outros bens, o associado era chamado pelo IAPI para escolher o local de sua preferência den-tro do conjunto". Segundo AIcides, o material usado era de primeira quali-dade, o que corresponde ao sonho getutista de um operário satisfeito. "E por isso que, até hoje, muitas das casas continuam perfeitas, sem uma reforma sequer".
Garagens
Substituem Jardins
O sonho populista, contudo, acabaria sofrendo os efeitos da realidade econômica e social do restante do país. O salário mínimo entraria em vertiginosa queda, sobretudo a partir dos governos mili-tares instalados em 1964. O automóvel, se popularizaria e, ainda que nos mode-los mais ultrapassados, acabaria chegando também aos operários especializados. E a burocracia se agravaria a ponto de criar um emaranhado que estrangularia pro-jetos mais generosos como o IAPI.
"O IAPI era um paraíso. As casas não possuíam muros e eram todas ajardinadas", recorda-se, saudoso, Eurico dos Santos, morador do local desde 1953. Por considerar a área de responsa-bilidade federal, a prefeitura se recusava a fazer nela obras de infra-estrutura. Por isso, somente no final dos anos 60 a iluminação pública chegaria aos pos-tes do IAPI". Pela mesma razão, até hoje, o asfalto só beneficia a um terço das ruas do conjunto.
Na opinião de Alcides Dof, "no final da década de 60 o conjunto IAPI se descaracterizou. Tido no início como um dos lugares mais confortáveis da cidade, arborizado e com escolas, "o cresci-mento das famílias foi fazendo com que o pessoal ampliasse suas casas ao fundo do terreno", matando a horta familiar. Depois, as residências perderiam seus jardins, para dar lugar às garagens e aos "fusquinhas velhos". Mas ainda hoje é possível encontrar casas sem muros no bairro, que conservam seus jardins. "Dá para se ter uma idéia de como este lugar abandonado já foi um bairro gostoso", finalizou Eurico dos Santos.
Os projetos habitacionais posteriores abandonaram a idéia da casa térrea e partiram para a aventura vertical,
acompanhando a tendência da economia política e da construção civil.
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