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PRIMEIRA
HORA – OSASCO, 07 DE SETEMBRO DE 1991
RELIGANDO AS DUAS PONTAS DA LINHA
Há
Vinte Anos Morriam Lamarca e Barreto
Uma peça de teatro na Bahia, em Brotas de Macaúba, no Buriti Mirim, e uma palestra em Osasco relembram a saga de dois osasquenses: o ex-capitão Carlos Lamarca e José Campos Barreto.
Só a versão oficial sobre a morte do ex-capitão Carlos Lamarca e do operário-estudante José Campos Barreto, o Zequinha, ganhou as páginas dos jornais no sombrio final de 1971. As mãos que escreveram as matérias não eram de jornalistas profissionais, mas de agentes dos órgãos de segurança, possivelmente as mesmas que acionaram os gatilhos das metralhadoras no Buriti Mirim, em Brotas de Macaúba, sertão da Bahia, ou pelo menos cúmplices daquelas. Lamarca e Barreto não tiveram qualquer chance de defesa, principalmente o ex-capitão, alvejado enquanto dormia. Pelo que conta o livro Lamarca, o Capitão da Guerrilha, de Emiliano José, Barreto ainda teria acordado, levantado e gritado viva a revolução, antes de tombar picotado pelas balas. Ambos, possivelmente, estavam com malária e exauridos após semanas perambulando pela caatlinga, fugindo dos helicópteros que, como narrou Olderico Barreto, irmão do
operário-estudante a PH, "em cenas dignas do filme Apocalipse Now, levavam a destruição do final do século XX a uma aldeota perdida na Idade Média, disseminando o terror entre camponeses e mães de família "que achavam ter chegado o fim do mundo e, até hoje, vinte anos depois, tremem à simples presença de um estranho".
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Lamarca
e Barreto: abatidos
em setembro de 1971 |
Os leitores de jornais de 1971, entretanto, não souberam como, nem mesmo quem eram os homens mortos na Bahia, em 17 de setembro.
Naquela época, o Brasil não era um, mas dois países, um oficial, o outro, real. O país oficial era uma imagem platinada, quase melosa, sem contradições ou fome, cuidadosamente filtrada e embalada como uma mercadoria pela censura prévia e pelos organismos de propaganda da ditadura militar. O país real era a pátria do endividamento externo, do depauperamento da educação e da saúde públicas, da corrupção em escala hierárquica ampliada e do aprofundamento das desigualdades econômico-sociais e morais. No plano do real, alguns jovens -- até com a afoiteza e às trapalhadas próprias da idade -- insurgiam-se contra o estado das coisas e eram alvo da ação com e sem quartel do aparato policial-repressivo mais bem montado que o Brasil já viu em quase quinhentos anos. Tanto sua luta quanto a repressão de que os jovens eram alvo, e principalmente as torturas sistemáticas e arbitrariedades de que eram vítimas, não eram assunto de jornal. Ainda que amedrontada, e apesar dos riscos de simplesmente comentar tais assuntos em público, a nação tinha uma idéia e uma profunda curiosidade pelo que se passava às margens das páginas dos jornais e nos porões da ditadura, principalmente na sua fase mais aguda, da edição do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, e 1975. A ditadura terminou, mas aquela fase da história do Brasil continua tão pouco conhecida como aqueles jovens envoltos por uma aura romântica.
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O
livro de Emiliano
José e Oldack Miranda |
A curiosidade em torno da guerrilha contra a ditadura dos anos 60 e começo dos 70 deverá justificar o interesse de toda a grande imprensa no próximo dia 17, quando o sacrifício de Lamarca e Barreto no sertão baiano completará vinte anos. Exatamente no lugar em que ambos tombaram, no Buriti Mirim, nos dias 14 e 15 de setembro, um grupo teatral de Salvador deverá representar uma peça, inaugurando os eventos rememorativos.
Lamarca e Barreto, embora muitos não saibam, iniciaram suas vidas ético-política em Osasco. O ex-capitão era oficial de infantaria, no então 4º Regimento de Infantaria, e Zequinha, operário da Forjaria da Cobrasma e estudante do Ceneart; foi presidente do CEO (Círculo dos Estudantes de Osasco), participando de manifestações como a passeata de 5.000 em protesto contra a morte do estudante Edson Luís, em março de 1968, no Rio, e liderou a ocupação da Cobrasma pelos seus funcionários, em 16 de julho do mesmo ano. Em Osasco, os vinte anos da morte de Carlos Lamarca e José Campos Barreto também serão lembrados pela UEO (União dos Estudantes de Osasco) que está distribuindo folhetos em todas as escolas, chamando seus alunos para uma palestra do jornalista Roberto Espinosa.
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