|
|
PRIMEIRA
HORA – OSASCO, 06 DE ABRIL DE 1991
NO SÍTIO
DE RAPOSO TAVARES
Quitaúna: 70 anos de história
acontecem sob nossos narizes
Embora em 14 de abril próximo seja comemorado apenas o décimo-nono aniversário do 4º BIB (Batalhão de Infantaria Blindada), a história dos quartéis de Quitaúna remonta ao começo da década de 20. Ali se escreveram partes importantes da história do Brasil, como o epílogo do movimento tenentista, a revolução constitucionalista de 1932, a redemocratização de 1945, o movimento militar de 1964 e até uma fase decisiva da guerrilha do final década de 60 e início da de 70.
Quem vai do Quilômetro Dezoito ao Quilômetro Vinte-e-um, com certeza, lembra-se de reduzir a velocidade na praça Antônio Raposo Tavares, mas
poucos sabem que, naquele lugar, há mais de trezentos anos, morava o próprio bandeirante e sua família. Poucos também refletem que, ali, aconteceram fatos que estão intimamente ligados à história do país desde a década de 20. Foi em 28 de agosto de 1921, que o presidente da República Epitácio Pessoa esteve em Osasco e lançou a pedra fundamental do 4º RI (Regimento de Infantaria), que seria instalado dois anos mais tarde, pouco antes da Revolução de 1924 e do surgimento da Coluna Prestes, em 1926. O novo regimento surgiu como um desdobramento do Corpo de Artilharia de Santa Catarina, importante corporação do Exército Brasileiro desde 1819 e do 2º Batalhão de Infantaria, que se tornou famoso na Guerra do Paraguai e na Guerra dos Farrapos como "Barriga Verde", por causa de seu uniforme, e contou em suas fileiras com o capitão Antônio Sampaio, patrono da infantaria do nosso Exército.
O
Que Havia de Civilização
Osasco foi escolhida como sede do 4º RI vizinha da antiga estrada de ferro Sorocabana (atual Fepasa) e do Rio Tietê, capaz, portanto, de proteger São Paulo, mas distante o bastante do centro da Capital, pois em 1920 não havia praticamente nada entre Quitaúna e o espigão da avenida Paulista. Ainda na década de 40, quando começavam a surgir as primeiras indústrias no Centro de Osasco, ainda éramos uma zona praticamente rural. Como se recorda dona Maria Pereira, a Lila, há quase cinqüenta anos moradora do Quilômetro Dezoito, "na década de 40, o bairro dependia dos quartéis. Missa só era possível de ser assistida na capela de lá. Á. única escola era financiada pelos militares, que também cediam uniformes, material escolar e merenda. Até a banda que tocava em nossos bailinhos era deles".
Antes de dona Lila ouvir a banda do 4º RI, entretanto, o quartel de Quitaúna já vivenciara um momento decisivo na história de São Paulo e o fim da República do Café-com-Leite. Em 1932, a oligarquia paulista promoveu a Revolução Constitucionalista contra Getúlio Vargas, visando, em última instância, até o desligamento do Estado do resto da Federação. De acordo com a coleção Nosso Século, da Abril Cultural, "no dia 10 de julho, Quitaúna, único quartel da região a esboçar certa resistência, acaba por abrir seus portões -- e assim, sem disparar um só tiro, os rebeldes passam a controlar o Estado. É o começo da Revolução Constitucionalista". No mesmo dia, tropas do 4º RI marchariam para a região de Pindamonhangaba, voltando a Quitaúna no dia 16 de setembro, para logo seguirem o sul do Estado (Itapetininga), retomando derrotadas em 29 de setembro.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a FEB (Força Expedicionária Brasileira), que participou dos conflitos na Itália, contra o estado fascista de Benito Mussolini e o nazismo de Adolfo Hitler, contaria com "pracinhas" de Osasco, formados no 4º RI.
|

|
|
O
4º RI comemora dezenove anos |
Autonomia de Osasco é
Levada ao Quartel
Nas conspirações que culminaram com o golpe militar de 31de março de 1964, os comandantes da Guarnição de Quitaúna, a mais importante do 2º Exército, também envolveram os comandantes dos quartéis aqui sediados, além do 4º RI, o importante 2º GCan (Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 milímetros, hoje 2º GAAAE). Pelos quartéis da região, em diversos momentos de sua carreira, passaram importantes chefes militares, como os irmãos Ernesto e Orlando Gelse, Dale Coutinho e o coronel Lepiani.
Como parte das comemorações pelo aniversário do 4º BIB (4º Batalhão de Infantaria Blindada -- Batalhão Raposo Tavares), desmembrado em 14 de abril de 1972 do antigo 4º RI, desde a última quinta-feira, 11, está aberta uma exposição de fotos e documentos históricos do quartel, organizada pela Secretaria de Educação e Cultura de Osasco. Embora a exposição seja fechada à visitação pública, os interessados em conhecê-Ia podem entrar em contato com o tenente Pimentel, na sede do batalhão. Um dos documentos do arquivo do 4º BIB vistos pela reportagem de PRIMEIRA HORA foi a Ordem do Dia número 71, de 6 de abril de 1964, que informa que o Regimento recebera ordens para entrar em estado de prontidão "às 16 horas do dia 31 de março", horas, portanto, antes do início do golpe militar. Segundo a Ordem do Dia, "começava (sic) oficialmente as jornadas gloriosas da revolução democrática", que também justificava o movimento como uma necessidade de interromper o processo de comunização que ameaçava o país".
Como a situação em São Paulo foi rapidamente colocada sob controle graças à colaboração do governador Adhemar de Barros, tropas do 4º RI foram enviadas ao Paraná, para um possível enfrentamento com as forças do 3º Exército (do sul), comandadas pelo general Ladário Teles, supostamente fiéis ao presidente João Goulart. As tropas viajaram 18 horas, sob chuva, mas não houve combates. Elas desfilaram em Curitiba e retomaram a Osasco.
Muitos cidadãos osasquenses, nessa época, conheceram as prisões de Quitaúna, passando pelos famosos IPMs (Inquéritos Policiais-Militares). Até o processo de construção da estrutura municipal (a emancipação efetivara-se apenas dois anos antes) sofreu com isso. Dentre outros, foram recolhidos a Quitaúna o primeiro prefeito da cidade e atual vereador Hirant Sanazar, os vereadores Primo Broseghini, Alfredo Tomáz, Clóvis Carrilho, João Catan, Reginaldo Valadão e líderes de Movimentos populares como o estudante (e atual psiquiatra) Gabriel Figueiredo, presidente da UEO.
Lamarca:
Deserção e Aadesão à Guerrilha
|

|
|
Carlos
Lamarca, quando capitão
do Exército,
ensinava funcionários
do Bradesco a atirar
com fuzil.
Foto de 1969. |
Como não poderia deixar de ser, entre os muros de Quitaúna também repercutiam os sons produzidos do lado de fora, na insubmissa Osasco de 1968. As greves operárias de abril a julho, sob a liderança de José Campos Barreto e José Ibrahim, e as sucessivas passeatas estudantis, sob os discursos de jovens: como Roque Aparecido da Silva e Roberto Espinosa, acabariam sendo ouvidos até nas tropas. Dessa forma, um capitão do Exército, Carlos Lamarca, acabou ingressando numa organização política, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Como campeão de tiro do 2º Exército, Lamarca, no final de 1968 foi capa de importantes revistas brasileiras, como "O Cruzeiro", treinando para caixas do Bradesco a atirar com fuzis para se defenderem de possíveis assaltos da guerrilha.
Entretanto, no dia 25 de janeiro de 1969, Lamarca, o sargento Darcy Rodrigues, o cabo José Mariane e o soldado Carlos Roberto Zanirato, desertaram do Exército, levando consigo 63 fuzis FAL, três metralhadoras INA e diversos outros equipamentos de guerra. Juntamente com o ex-operário-estudante José Campos Barreto, Lamarca morreria no sertão da Bahia em 17 de setembro de 1971. A expulsão do capitão por: "traição e deserção" está registrada na I Ordem do dia número 36, de 13 de fevereiro de 1969. Na própria Ordem do dia 36, logo após a fuga dos militares, consta que o oficial abandonara, em seu armário, além da espada, dos uniformes, cartões de visita, e um livro que ensinava "como fazer greves e ocupações de fábricas".
Tietê:
Uma Picada no
Mato dos Bandeirantes
Por volta de 1660, um homem estranho chegou a um sítio onde hoje se localizam os quartéis de Quitaúna. Tinha uma longa barba e as marcas de muitas malárias e doenças tropicais no rosto. Os moradores do sítio certamente se assustaram com a aparição. Afinal, estavam separados por quase
20 KM de matas virgens do primeiro traço de civilização, o Colégio de São Paulo, onde havia uma pequena vila do Planalto de Piratininga, fundada pelos jesuítas e que viria a se transformar na cidade de São Paulo.
Sem dúvida, demorou algum tempo, mas o estranho acabou explicando quem era: o proprietário do sítio e chefe da família, o bandeirante Antônio Raposo Tavares, trinta anos antes, em 1630, daquele mesmo lugar e usando o rio Tietê como única picada possível no meio da selva, ele partira para conquistar o Brasil. Nas três décadas em que esteve fora, aprisionando índios (que vendia como escravo no Nordeste) ou caçando ouro e pedras preciosas, fundara inúmeras cidades no Centro-Oeste, alargando o traçado estreito do Tratado de Tordesilhas em favor do Brasil. Esteve tanto no atual Mato Grosso, como no Pará e fez incursões até a Bolívia e o Perú.
Dois séculos antes do nascimento do Italiano Antônio Agu, portanto, já registraram a história de Osasco. E, num lugar em que aconteceriam fatos, a partir de 1921 – em pleno Movimento Tenentista -, que se misturariam e seriam decisivos para a história do Brasil como um todo.
|
|