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PRIMEIRA
HORA – OSASCO, 06 DE ABRIL DE 1991
SESSENTA ANOS DE HISTÓRIA
"Quilometro Dezoito",
Por Favor,
e Por Extenso...
Orgulho do lugar de residência é uma coisa um tanto rara em Osasco, principalmente em relação aos bairros. Existe uma região da cidade, contudo, que tem mais que orgulho. Ela vive um verdadeiro estado de espírito, que se justifica pelo futebol, pelo teatro e pelo samba, e pode ser classificado, sem chance de erro, pelo nome "dezoitismo".
Reportagem de Luís Pires.
"Dezoitino de coração". Assim se define Hamiraldo Camargo, 59 anos de idade, nascido no Rio de Janeiro (“por força do destino, numa viagem de meus pais"). Filho do tenente Theóphilo Camargo, que servia no quartel de Quitaúna, Hamiraldo pertence a uma das mais antigas famílias a se instalar no bairro. Mora desde o início na avenida Comandante Sampaio, "desde o tempo em que pela Estrada de Itú (atual Autonomista) transitavam bois, e não carros"'. Ele, aliás, conta com certo saudosismo que cheguei a ser atropelado por bois". Segundo Hamiraldo, a razão dessa paixão é que "aqui no Dezoito todos se conhecem. Somos uma grande família".
Um dos filhos mais ilustres do bairro, o ex-prefeito (por duas vezes) Guaçú Piteri acredita que o "dezoitismo" pode ser facilmente explicado: "mesmo tendo crescido muito, a vila ainda preserva aquele gostoso sabor de vizinhança interiorana", oriundo de uma época em que a região tinha poucas residências, muitos campos de futebol, córregos e áreas verdes. "O morador do Dezoito, junto com o de Presidente Altino, faz questão de preservar suas tradições, sua história".
Sargentos e
Operários: os Primeiros Moradores
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O
Viaduto Integração, inaugurado em 9/11/86. Apesar
dos problemas, o viaduto ajudou o desenvolvimento
do Quilômetro Dezoito e região. |
A região compreendida entre os quartéis de Quitaúna e o Fórum de Osasco (avenida das Flores), englobando o Alto de Quitaúna, a Vila Isabel, a Cidade das Flores, o Jardim das e o Quilômetro Dezoito, é hoje uma das mais desenvolvidas da cidade. Surgida a partir de militares profissionais de baixa patente, cresceu a partir do surgimento da Cobrasma, na década de 40, como uma vila operária. Hoje, seus problemas de infra-estrutura (falta de asfalto, água encanada ou esgoto) são mínimos quando comparados com os de outros bairros de Osasco.
Os primeiros moradores, principalmente do Quilômetro Dezoito, eram sargentos e oficiais de baixa patente, que ali começaram a se instalar na segunda década deste século. "Por questão de comodidade", como observou Hamiraldo, filho do tenente Theóphilo que, nos anos 50 e começo dos 60, se destacaria como um dos "cabeças" do "não", facção que se opunha à emancipação de Osasco em relação à Capital. "Meu pai escolheu esse bairro por ser próximo ao quartel, onde ele trabalhava".
Por ser servido por uma “paradinha" da Estrada de Ferro Sorocabana, no antigo km 18, logo após à instalação de firmas grandes como a Cobrasma, a Soma e a Cimaf no Centro, outras fábricas vieram se juntar à Granada (fundada nos anos 30), como a Osram, a Rilsan (hoje Hoechst), a Hazafer e a Fábrica de Molhos Jimmy.
As fábricas, entretanto, não foram suficientes para que melhorasse a infra-estrutura da área. O farmacêutico ,Lucindo Saraiva, que instalou-se na avenida Dezenove de Fevereiro, no Alto do Farol, em 1954, conta que lá "não existia luz elétrica, nem água encanada. Eu e um vizinho puxamos a luz, por conta própria, do último poste, que ficava onde hoje se localiza a avenida Nossa Senhora da Conceição" . Quarenta anos depois, ele observa: "O Dezoito é o único bairro da cidade a possuir mais de uma agência bancária", referindo-se às filiais do Bradesco, Nacional e Banco do Brasil, na avenida dos Autonomistas.
A partir da década de 60, com a interrupção do desenvolvimento industrial de Osasco como um todo, o Dezoito passou a vivenciar um processo semelhante ao do Centro: a expansão do comércio. Em menos de vinte anos, o Dezoito se expandiu tanto que os comerciantes locais acreditam que será capaz de funcionar como alternativa à saturação do Centro.
Tancredo Neves
Acelerou Transformação
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Lançamento
da pedra fundamental
da Escola
Vocacional do Quilômetro
Dezoito, em
fevereiro de 1967. Ao
microfone, o padre
Rafael Buzatto. |
Fator decisivo para o crescimento do Dezoito e sua conversão num quase segundo Centro de Osasco, foi a inauguração, em 1986, do Viaduto Tancredo Neves, mais conhecido como da Integração, a via mais rápida e com maior capacidade de razão de veículos, entre as zonas Norte e Sul da cidade. O advogado Aylton Oliva, de seu escritório na Hildebrando de Lima, a propósito, informou que "daqui até a praça João Mendes, na Capital, atualmente eu faço em 25 minutos. Antigamente gastava esse tempo só para chegar até às marginais".
O viaduto, porém, também transformou a região numa área de passagem, e sofre os desgastes decorrentes disso. Milhares de automóveis e moradores de bairros como os jardins Roberto, Santo Antônio, Piratininga e Helena Maria cruzam diariamente suas ruas. Não projetadas para absorver o contingente de automóveis e caminhões, diversas pistas - como a da Hildebrando de Lima –apresentam "crateras". Mas "'o viaduto trouxe mais benefícios que prejuízos", ponderou o advogado Oliva, frisando que “basta acompanhar o salto na valorização dos imóveis", que, no contexto osasquense, só perde para o Centro e para as áreas vizinhas da vila Yara. O processo de valorização da região "expulsou" ou "expurgou" os antigos operários. Quem não subiu de classe social, mudou do Dezoito e do jardim das Flores. Hoje, para comprar ou alugar uma casa na região é preciso ter um salário no mínimo de classe média ascendente.
O
Outro Lado da Moeda Ainda Existe
Dentro de toda a região, a valorização imobiliária beneficiada sobretudo o alto do jardim das Flores. Ocupando uma área que no passado constituía uma enorme fazenda, de propriedade de Delfino Cerqueira e tinha sua sede no local onde hoje está instalada a caixa d'água da Sabesp (esquina da avenida das Flores com a rua Ester Aronis), a região já abriga o Fórum, o Ginásio de Esportes Yves Tafarello e a Fito (Fundação Instituto Tecnológico de Osasco). No futuro, deverá ser a sede de um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, o Centro Cultural de Osasco, encomendado pelo prefeito Rossi, que também passou sua infância e ju-ventude no Dezoito, e o próprio Paço Municipal, como desejava Guaçú Piteri.
Segundo Urbano Moraes, um dos moradores mais antigos da rua Dália, o desenvolvimento dessa parte do jardim das Flores é "tremendamente rápida". Ele se recorda que em 1967 "lá havia trechos onde não existiam ruas, mas somente picadas no meio do mato". Se a área apresenta uma das mais surpreendentes valorizações imobiliárias da cidade, ainda também contém duas favelas, que dificultam os planos da Prefeitura: uma fica entre as ruas Dália e Alberto Cortês, por onde existe um projeto de avenida ligando o jardim Santo Antônio à avenida dos Autonomistas. A outra localiza-se atrás do Fórum, exatamente no lugar onde a administração municipal pensa em instalar tanto o Centro Cultural como o novo Paço.
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